Como um teste rápido pode ajudar no diagnóstico da aspergilose invasiva?
- Associação de Pesquisadores Brasileiros no Japão
- 19 de ago.
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Atualizado: 25 de ago.

Uma pesquisa desenvolvida por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em colaboração com a Chiba University, no Japão, mostrou que um teste rápido para detectar galactomanana apresentou resultados semelhantes aos de um método laboratorial já utilizado na investigação da aspergilose invasiva. Ao analisar 71 amostras de lavado broncoalveolar, o teste apresentou cerca de 90% de acurácia em comparação com o método de referência utilizado no estudo.
O estudo, desenvolvido durante a pesquisa de mestrado de Sarah Craveiro Martins, membro da Associação de Pesquisadores Brasileiros no Japão (ABrJ), reuniu pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), no Brasil, e do Medical Mycology Research Center (MMRC), da Chiba University, no Japão. A pesquisa foi desenvolvida no âmbito de um projeto SATREPS em colaboração com a Japan International Cooperation Agency (JICA).
Mas por que um teste capaz de fornecer resultados em menos tempo é importante para o diagnóstico de uma infecção causada por fungos?
Os fungos do gênero Aspergillus estão presentes no ambiente e seus esporos podem ser inalados diariamente. Na maioria das pessoas, isso não representa um problema. Entretanto, em pacientes mais vulneráveis, especialmente aqueles com o sistema imunológico comprometido, o fungo pode causar uma infecção grave conhecida como aspergilose invasiva, que frequentemente afeta os pulmões.
Mas por que é tão difícil diagnosticar uma infecção causada por Aspergillus?
A identificação do fungo pode envolver a observação ao microscópio e o cultivo da amostra em laboratório, mas esses métodos nem sempre conseguem detectar todos os casos de aspergilose invasiva. Por isso, além da busca direta pelo fungo, outras estratégias podem auxiliar no diagnóstico, incluindo a detecção de componentes produzidos ou liberados pelo próprio microrganismo.
Um desses componentes é a galactomanana, um polissacarídeo presente na parede celular dos fungos do gênero Aspergillus. Durante o crescimento do fungo no organismo, essa molécula pode ser liberada e detectada em amostras clínicas, funcionando como um marcador que auxilia na investigação da infecção.
Uma das formas de detectar a galactomanana é por meio do ensaio imunoenzimático (EIA ou ELISA). Esse teste laboratorial é capaz de detectar e quantificar diferentes moléculas em amostras biológicas, como anticorpos, antígenos ou proteínas. No caso da aspergilose, o método é utilizado para identificar a galactomanana. Apesar de já ser utilizado na rotina diagnóstica, o EIA envolve múltiplas etapas laboratoriais, como incubação e lavagens, e pode exigir mais tempo e infraestrutura para a obtenção dos resultados.
Foi justamente nesse cenário que surgiu a pergunta desta pesquisa: será que um teste mais simples e rápido poderia apresentar resultados semelhantes aos obtidos pelo EIA?
Para investigar essa questão, pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em colaboração com pesquisadores da Chiba University, no Japão, compararam dois métodos capazes de detectar galactomanana em amostras de lavado broncoalveolar. Esse material é obtido das vias respiratórias inferiores durante um procedimento médico em que uma solução salina é introduzida e posteriormente aspirada para análise, permitindo investigar diretamente o ambiente pulmonar em busca de sinais de infecção.
Ao todo, foram analisadas 71 amostras desse material de pacientes internados no Hospital das Clínicas da Unicamp entre 2019 e 2021, todos com suspeita clínica de aspergilose pulmonar invasiva. As amostras foram avaliadas utilizando o método de EIA e um teste de fluxo lateral, conhecido pela sigla LFA (Lateral Flow Assay). Os kits do teste de fluxo lateral utilizados na pesquisa foram fornecidos pela IMMY, empresa especializada no desenvolvimento de testes diagnósticos para infecções fúngicas. A empresa não participou do desenho do estudo, da análise ou interpretação dos dados, nem da redação do artigo científico.

O LFA, ilustrado na imagem acima, chama atenção justamente pela simplicidade e rapidez. Enquanto o EIA envolve diferentes etapas laboratoriais, como incubação e lavagens, e pode fornecer resultados, de acordo com o fabricante, em cerca de três horas, o teste de fluxo lateral apresenta um procedimento mais simples e pode fornecer resultados em menos de uma hora. Além disso, o LFA exige uma estrutura laboratorial mais simples, embora, neste estudo, tenha sido utilizado com o auxílio de um leitor específico, fornecido pelo fabricnante, para a interpretação dos resultados.
E o que os pesquisadores encontraram?
Os dois testes apresentaram resultados coincidentes em 63 das 71 amostras analisadas, o equivalente a cerca de 89% do total. Em apenas 8 amostras (11,3%), os resultados foram diferentes entre o LFA e o EIA.
Na comparação com o EIA, o teste rápido apresentou 73,3% de sensibilidade, 92,35% de especificidade e cerca de 90% de acurácia, indicando uma boa concordância entre as duas metodologias.
Esses resultados sugerem que o LFA pode ser uma alternativa interessante para a detecção de galactomanana em amostras de lavado broncoalveolar, especialmente por ser uma metodologia rápida e mais simples de executar.
Por que isso é importante?
Diagnosticar uma infecção fúngica de maneira rápida e adequada é fundamental para que o paciente possa receber o tratamento apropriado o quanto antes. Nesse contexto, os resultados do estudo mostram que o teste de fluxo lateral para detecção de galactomanana pode ser uma ferramenta útil na investigação da aspergilose invasiva em amostras de lavado broncoalveolar.
Por apresentar boa concordância com o EIA e um procedimento mais rápido e simples, o LFA pode contribuir para ampliar o acesso a ferramentas de diagnóstico em diferentes contextos laboratoriais.
Isso não significa, entretanto, que um único teste seja suficiente para confirmar ou excluir todos os casos de aspergilose invasiva. O diagnóstico dessas infecções é complexo e pode envolver diferentes informações clínicas e laboratoriais. O próprio estudo destaca a necessidade de pesquisas maiores e da combinação de diferentes métodos para melhorar o diagnóstico precoce.
Uma pesquisa entre Brasil e Japão
Além dos resultados obtidos, o estudo também representa um exemplo de colaboração científica entre Brasil e Japão, reunindo pesquisadores e instituições dos dois países em torno do desenvolvimento de novas estratégias para o diagnóstico de infecções fúngicas.
Acesse o artigo na íntegra: https://doi.org/10.1016/j.bjid.2024.103838
Créditos: Sarah Craveiro Martins, Cibele Aparecida Tararam, Larissa Ortolan Levy, Teppei Arai, Akira Watanabe, Maria Luiza Moretti, Plínio Trabasso. Comparison of galactomannan lateral flow assay and enzyme immunoassay to identify Aspergillus spp. in bronchoalveolar lavage fluid. The Brazilian Journal of Infectious Diseases. Volume 28, Issue 4, 2024,103838. ISSN 1413-8670. https://doi.org/10.1016/j.bjid.2024.103838.
(Por Sarah Craveiro Martins, membro do grupo de C&T - Cooperação - ABrJ)


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